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A expansão agrícola na América do Sul provocou profundas transformações ambientais, particularmente nos Pampas, vastas extensões de campos e savanas naturais, e na Mata Atlântica. Apesar das extensas áreas afetadas por essas mudanças, os efeitos a longo prazo dessa expansão no transporte de sedimentos e pesticidas nos sistemas fluviais da região permanecem pouco documentados.

Este estudo, publicado na revista Journal of Hazardous Materials Advances, realizado pelos laboratórios LSCE e EDYTEM em colaboração com seus parceiros da América do Sul (Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade da República em Montevidéu, Uruguai), França (BRGM) e Suíça (Universidade de Basileia), possibilitou reconstruir o impacto dessas mudanças na degradação do solo, no âmbito do projeto internacional de pesquisa (IRP) CNRS CELESTE Lab e do projeto franco-suíço ANR AVATAR.

Um testemunho sedimentar foi coletado no reservatório da barragem do Salto Grande, cuja bacia hidrográfica drena uma das regiões agrícolas mais produtivas do Brasil, o estado do Rio Grande do Sul, primeiro e segundo maiores produtores de arroz e soja do país, respectivamente. Essa região também passou por mudanças significativas no uso da terra e nas práticas agrícolas, com uma transição da agricultura convencional para a agricultura de conservação. A agricultura de conservação baseia-se na adoção generalizada do plantio direto, que consiste no plantio de culturas com mínima perturbação do solo, mantendo os resíduos da colheita para limitar a erosão. O arquivo sedimentar coletado foi analisado utilizando uma abordagem multi-proxy que combina datação por radionuclídeos, análise geoquímica de alta resolução, análise de propriedades magnéticas, rastreamento da proveniência dos sedimentos e quantificação de pesticidas. A evolução dos fluxos de sedimentos e pesticidas foi, portanto, reconstruída para o período entre 1982 e 2023 na vasta bacia transfronteiriça do Rio Uruguai (260.000 km²), compartilhada entre Brasil, Argentina e Uruguai.

Os resultados mostram que, desde os anos 2000, os fluxos de sedimentos diminuíram, em geral, 62% a jusante dessa bacia hidrográfica. Paralelamente a essa diminuição, observou-se uma mudança nas principais fontes de sedimentos que contribuem para o reservatório, com um aumento acentuado na contribuição da parte sul da bacia para a deposição no reservatório, passando de 40% entre 1982 e 2000 para 70% dos fluxos entre 2000 e 2023. Essas mudanças são consistentes com a construção de barragens, que retiveram sedimentos na parte norte da bacia, bem como com os impactos esperados da adoção generalizada do plantio direto, que reduziu os fluxos de sedimentos. Além disso, a mudança observada na fonte de sedimentos é consistente com a expansão agrícola que afetou principalmente a parte sul da bacia durante esse período.

Em contraste com a diminuição na entrada de sedimentos, os fluxos de pesticidas aumentaram significativamente no período recente (2000–2023). Vários compostos detectados em sedimentos superficiais apresentam concentrações que excedem os limites de referência nos quais a concentração de um pesticida é considerada um risco para as comunidades expostas a essas moléculas. Esses resultados sugerem um potencial risco ecológico para as comunidades bentônicas, os grupos de espécies que vivem na interface entre a água e o sedimento. Essas descobertas demonstram que o plantio direto, implementado em larga escala no sul do Brasil nas últimas duas décadas, reduziu a transferência de sedimentos para o reservatório principal. No entanto, levou a um aumento na transferência de pesticidas rio abaixo, particularmente devido ao seu uso contra plantas daninhas em sistemas de plantio direto e ao uso de sementes geneticamente modificadas resistentes a herbicidas. A implementação de medidas adicionais permanece essencial para reduzir ainda mais essas transferências de sedimentos e poluentes.

Nesse contexto, acordos comerciais como os firmados entre a União Europeia e o Mercosul, e o consequente aumento da área de terra dedicada ao cultivo de soja, podem incentivar a expansão agrícola contínua e a intensificação das pressões ambientais associadas. Este estudo, portanto, ressalta a necessidade de fortalecer o monitoramento do uso da terra agrícola, das transferências de contaminantes e seus efeitos sobre os ecossistemas aquáticos da bacia do rio Uruguai.